sábado, 26 de fevereiro de 2011

"Panela vigiada não ferve": A percepção da passagem do tempo.


Vanessa da Mata - Pirraça
Passa o tempo sem demora
Quando não penso nas horas

Os ponteiros do relógio
Fazem voltas se não olho
Mas quando acendo o fogo
Para fazer um café
Vejo o tempo parar
Pra água ferver
Parece nunca acabar, espera sem fim
06:04; 06:05; 06:05; 06:05
Esperando o apito da chaleira
Vejo o tempo parar
Parar
O tempo pirraça
Quando à tarde no trabalho
Quero que o tempo passe
Os ponteiros do relógio
Só me dão o tique-taque
Quando eu encontro os amigos
Para tomar um café
A rapidez que não tinha
Sem disfarçar
  Parece brincadeirinha
 Pega-pega (...)


                                                                



Não é incrível como 1h, em situações diferentes, pode ser percebida como sendo muito mais longa ou muito mais curta? Quando estamos com uma pessoa que gostamos, por exemplo, o tempo parece voar. Por outro lado, quando estamos com uma pessoa chata desagradável, 1h nos parece uma eternidade. O mesmo acontece quando estamos realizando uma atividade interessante, estimulante, ou uma atividade repetitiva, morosa. Esse post visa pontuar algumas possíveis explicações para este fenômeno, sem nenhuma pretensão de esgotar o assunto.

O tempo, desde sempre, foi objeto de interesse da humanidade. Foi sempre ele que, em grande medida, ditou o estilo de vida nas sociedades, sejam elas as ditas "primitivas" onde, basicamente, sua análise dizia respeito a obsrevância da passagem dia/noite e dos ciclos climáticos ou as sociedades modernas onde é possível fazer medidas de tempo em milésimos de segundos. Desta maneira, esta temática tem sido tomada por áreas diversas, tais como a filosofia, a literatra, a física, a biologia, etc. e a Psicologia não está de fora. É importante notar, porém, que para nós interessa não a noção física do tempo e sim a consciência de sua duração. Para fazer esta distinção, normalmente referimo-nos a percepção da passagem do tempo, nesta perspectiva, como protensão.

Falar do tempo nesta ótica não é tarefa fácil, dado que não é algo palpável, é puramente conceitual. Nas palavras de Woodrow (2000) "é um conceito, algo como valor de moedas, e somente se liga a percepção através de um processo de julgamento." Feitos estes esclarecimentos, vejamos, brevemente, duas explicações (que não se excluem nem se encerram em si mesmas): os aspectos cognitivos e os biológicos, lembrando que são os primeiros os que nos interessam particularmente.

As teorias cognitivas partem do princípio que a experiência do tempo é uma construção cognitiva, um produto da atividade mental. Um dos mais relevantes teóricos desta perspectiva é Ornstein, com sua Teoria do Tamanho do Armazenamento de informações. Segundo ele, o número de eventos, intervalos preenchidos e não preenchidos, a complexidade dos estímulos, a organização e a memória influenciam a experiência do tempo. Vejamos sucintamente como cada um desses elementos contribuem para o fenômeno. No que diz respeito a quantidade de eventos, percebe-se que, para um mesmo intervalo de tempo, quanto maior for o número de eventos ocorridos, maior será a estimativa temporal, ou seja, maior será o tempo percebido. Isto pode ser avaliado apresentando-se estímulos sonoros e/ou visuais em intervalos de tempo. Uma pessoa que, por exemplo, é exposta a 20 estímulos sonoros em 10 minutos e depois é exposta a 40 estímulos sonoros também em 10 minutos, avaliará a segunda experiência como ocorrendo em um intervalo de tempo superior. Outra situação a se analisar é a questão dos intervalos preenchidos versus intervalos não preenchidos. Em lihas gerais, intervalos com estímulos parecem mais longos do que intervalos "limpos", vazios (uma vez que estes possuem menos dados a se analisar). De outra forma, porém, podemos pensar a questão do intervalo vazio quando se trata de algo em que há uma grande expectativa referente a um evento que se aproxima. Aqui chegamos a explicação para o título do post: panela vigiada não ferve. A explicação está na expectativa do sujeito e na elevada consciência quanto a passagem do tempo. Ambos fatores fazem com que o tempo seja percebido como tendo maior duração. Ou seja, o que determina se um espaço de tempo vazio vai ser percebido como tendo maior ou menor duração é a natureza do evento. É por isso que quando estamos esperando o resultado de um concurso importante, notícias de alguém com quem nos importamos, uma recompensa, etc. o tempo parece passar devagar. Quanto a complexidade do estímulo, aqueles mais complexos fazem com que o tempo pareça aumentar. No que diz respeito a organização e memória, os intervalos preenchidos com estímulos organizados parecem menores. Em relação a memória, segundo o autor desta teoria, os eventos agradáveis costumam ser lembrados como tendo uma duração maior do que de fato tiveram e o inverso ocorre para os eventos desagradáveis. Aqui, apesar de não ter encontrado outra perspectiva que critique esta ideia, acredito que ela pode ser relativizada, afinal, é comum ouvirmos muitas vezes relatos de pessoas que passaram por situações desagradáveis, de estresse, etc. e é comum elas relatarem os eventos como tendo uma duração muito maior do que de fato tiveram. Acho interessante pensar essa perspectiva por que ela tem implicações práticas muito sérias, por exemplo, para situações de crimes, na qual o sujeito, vítima ou testemunha, precisa relatar fatos com certa precisão temporal e o analisador deve estar atento a estas peculiaridades que envolvem a relação tempo/memória.

A idade também influencia a percepção da passagem do tempo. Quanto mais idoso o indivíduo, mas os eventos anuais parecem passar depressa. Isso acontece por que a sua idade serve como referência. Assim, percebe-se que 1 ano para uma criança de 5 anos é 20% do seu tempo de vida, enquanto que para um senhor de 60 anos representa menos de 2% de sua vida, por isso, parece mais curto para este último.

Quando se toma em perspectiva os aspectos biológicos da percepção da passagem do tempo é impossível não falar dos ritmos circadianos que, em poucas palavras, diz respeito à natureza cíclica de muitos processos corporais como a variação da temperatura corporal e a ingesta alimenar. Diversas pesquisas salientam a importância da exposição da retina à luz para a regulação destes ciclos. É importante, porém, notar que indivíduos cegos não têm os seus ciclos prejudicados. Há então hipóteses que apontam para outras fontes de recebimento destes sinais luminosos, como a parte de trás dos joelhos, devido a grande quantidade de vaos sanguíneos presentes nessa área. Baseado no que se conhece sobre esses processos, a temperatra e o metabolismo têm recebido destaque nos comentários acerca do que se chama de Relógio Biológico. Para ilustrar a importância da temperatura nesse processo podemos citar o Hoagland que estudou a relação entre temperatura e passagem do tempo apartir do estado de febre de sua esposa. Hoagland pedia a intervalos regulares e tendo a sua esposa temperaturas corporais diferentes para que ela estimasse a passagem do tempo contando até 60 no que lhe parecesse ser a velocidade de contagem de um segundo. Acontece que, por exemplo, quando sua temperatura era de 36,6º 52s foi estimado como sendo 60s e quando a temperatura era de 38,3º 40 segundos foi estimado como sendo um minuto. Em ambos os casos houve uma superestimação do tempo (o tempo parece passar mais rápido). Espera-se então que, com a redução da temperatura corporal haja uma subestimação (que o tempo pareça passar mais devagar) da passagem do tempo e isto é verdade. Estudos realizados com mergulhadores em água a temperatura de 4º comprova a hipótese. Ou seja, parece que a variação da temperatura corporal bem como as mudanças no metabolismo decorrentes dela afetam a percepção da passagem do tempo.

Algumas drogas também influenciam a percepção da passagem do tempo. As anfetaminas e a cafeína, por exemplo, prolongam a experiência do tempo (provocam superestimação) o óxido nitroso, por outro lado, provoca o encurtamento da experiência do tempo. Segundo Fraisse (1963) a regra geral é que: "As drogas que aceleram as funções vitais levam a superestimação do tempo e as que retardam produzem efeito inverso." As drogas psicodélicas ( maconha, LSD, psilocibina, etc.) prolongam muitísimo a duração percebida do tempo. Entretanto não se sabe ao certo se isso se dá devido a uma influência direta no relógio biológico ou se pelo fato de que elas aumentam a consciência e o estado de vigília que, como visto acima, implica no prolongamento da experiência do tempo.


É importante termos em mente que biologia e cognição podem e devem ser pensados em conjunto para que o fenômeno possa ser devidamente pensado. Acredito que esta temática tenha relevância para a Psicologia em suas várias vertentes, seja na jurídica, como evidenciado no caso da duração de eventos criminosos, para a clínica (um sujeito que superestima ou subestima significativamente a passagem do tempo pode nos dar um indício relevante para a terapia), para a Psicologia escolar, através de estudos que permitam perceber como as crianças percepcionam a passagem do tempo, pode-se pensar períodos de aulas mais adequados bem como a duração de outras atividades, etc.

«Este post tomou por texto base o capítulo "A percepção do Tempo", do livro "Sensação e Percepção de SCHIFFMAN, Harvey Richard.»

Um comentário: